terça-feira, setembro 18

Iniciar a análise da ordem....

Para analisar esta questão, procuro elencar alguns critérios/questões:

i) será que um número significativo de docentes quer mesmo aderir e pertencer a uma ordem profissional? Ou prefere ser antes funcionário às ordens superiores (neste caso do Minsitério)?
ii) Será que um número significativo de docentes tem a consciência de possuir a mesma identidade profissional, isto é, possui o mesmo código de referências científicas e pedagógica, o mesmo código de valores essenciais, a mesma visão da educação e da escola - dada a imensa heterogeneidade de formação inicial? (este enunciado não pressupõe o unanimismo, mas apenas um núcleo duro de referências fundamentais e identitárias, necessárias a uma ordem profissional)
iii) Será que um número significativo de professores está disposto a assumir a responsabilidade pela qualidade dos serviços que presta aos seus alunos, enquanto "clientes"/beneficiários?
iv) Será que está disposto a passar de uma lógica de obediência para uma lógica de responsabilidade?
v) Será que vai assumir a sua própria auto-formação contínua?
vi) Será que está disposta a vincular-se à autoridade dos seus pares?
vii) E será que a ordem teria o poder suficiente para aplicar um código deontológico que dignificasse a profissão em termos sociais?
viii) e menos importante, será que o ME e o Estado estão dispostos a outorgar o poder regulamentador, regulador e fiscalizador a uma Ordem?

A tendência das respostas é, a meu ver, negativa. E se isto for verdade não a pena sonhar com empreendimentos impossíveis.

PS: No plano do desejo pessoal eu gostaria de pertencer à ordem de professores. Contudo, realidade está muito longe de poder acolher o meu desejo.

14 comentários:

Miguel Sousa disse...

Caro Colega e Confrade, dou-lhe a minha opinião por aqui porque, sem que seja interpretado como uma crítica, concordo que os textos devam ser comentados e não respondidos com novo texto. Voltemos então ao dito comentário:

1º Todas as questões por si levantadas (e que tb concordo que são respondidas negativamente) se fossem feitas em relação ao síndicato, provavelmente teriamos respostas identicas e muito, em meu entender claro, por causa da falta de identidade dos professores com a classe. A ordem podia contribuir para isso;

2º Confesso que não sei como o processo aconteceu na ordens que existem, mas duvido que tenham feito essas perguntas (muito pertinentes9;

3º Não consigo distinguir das respostas negativas as que seriam fruto de uma reflexão aprofundada, visto este assunto nunca ter sido realmente debatido, ou melhor, nunca ter passado de debate de café (aqui, os sindicatos que dizem zelar pelos interesses da classe, t~em culpa porque nunca promoveram um debat sério e alargado sobre o assunto)

Por último gostava de voltar a dar ênfase ás minhas dúvidas acerca da utilidade da Ordem, agora também lhe digo que o caminho só se faz de uma maneira...caminhando...e

JMA disse...

Caro colega e confrade

Procuro cumprir as regras da confraria, instituídas pelo administrador. Se bem recordo, as participações podem seguir a hipótese de comentário ou de novo post. Segundo penso, a 1ª hipótese faz mais sentido se o texto for mesmo um comentário; a 2ª se o texto tentar avançar para outros enquadramentos.

Mas como compreenderá eu não tenho qualquer interesse pessoal em perturbar a ordem estabelecida (até porque sou novo nesta confraria)....

COmentando então: a ordem não pode ser decretada. E por isso é que é preciso ver se há condições objectivas e subjectivas no terreno (nunca falei em sindicatos) para que uma ordem resulte de uma vontade maioritária. Se nas outras ordens não houve estas perguntas - lembro que as perguntas são sobretudo critério de análise - foi porque não eram necessárias, porque a formação, a identidade etc estariam garantidas à partida;
Quanto à última questão: antes de discutir se é útil, é preciso ver se é possível. Portanto, (re)lanço nova questão: em que condições é possível existir uma ordem de professores?

Miguel Sousa disse...

caro Confrade, continuo a discordar desse ponto de partida pelas seguintes razões:

1º acho que a ordem deve ser decretada sim, mas sempre precedida de debate;

2º Se for util, se for fundamental TEM que ser possíve. Não me paerece que faça sentido criar obstáculos às mudanças desde que elas sejam essenciais.... Claro está que é fundamental o debate e óbviamente que~faço finca pé desse mesmo. Por esta razão é que é me parece importante um debate, mas um DEBATE, para que se entenda se é ou não pertinente. Se não for tudo bem, se for TEM QUYE SER POSSÍVEL


3º A outra questão que continuo a levantar é porque raio há tanto obstáculo a este debate? porque raio as pessoas antes de discutir a sua utilidade, dizem logo não é possível (atenção não estou dizendo que seja essa a sua posição).

PS(quanto à minha opinião acerca de ser comentário vale o que vale...é uma opinião, de certeza que respeito a posiçao de quem ditou as regras, mas tenho a certeza, só assim é que colaboro neste cano há muito tempo, que há lugar para a divergência de opinião mesmo quando se falam de regras do blogue. enfim só expressei o meu ponto de vista)

3za disse...

Perguntas inocentes de quem ignora muita coisa:
-qual será a razão pela qual alguns grupos profissionais são dotados de Ordem e outros não? Para além dos médicos,advogados, engenheiros... quantas mais há? (Há dos enfermeiros? Como há dos médicos...Alguma vez esta questão foi debatida, ponderada, iniciada pelos profs? Historicamente como surgiram as outras? Que caminhos foram feitos, que necessidade lhes deu forma. (Não, não é retórica, é mesmo ignorância... sinto esta lacuna e pouco posso aprofundar a discussão porque, como disse em comentário anterior, eu sinto falta de algo e acho que a esse algo talvez possa chamar Ordem... percebo a necessidade, os constrangimentos... mas não vou muito longe no aperfeiçoamento da reflexão)

AnaCristina disse...

Inicio aqui a minha participação nestes debates "sérios demais" para comentar a Ordem. Fui sócia da Associação de Biólogos que mais tarde se veio a tornar Ordem do Biólogos. Nesta Ordem há procedimentos, Identidade, Ética, Responsabilidade, Auto-formação, o que não significa que todos os Biólogs procedam e actuem da mesmíssima forma. Tal como nesta Ordem , são conhecidos casos de ética profissional duvidosa na Ordem dos Advogados, atitudes muito pouco responsáveis na Ordem dos Médicos, e em todas as outras, desde Psicólogos até Enfermeiros e Farmacêuticos.
A Identidade todos temos (sou tão professora quanto bióloga), a visão de autoridade, Ética e Responsabilidade nunca é uniforme para todos os intervenientes... Isto não implica necessariamente que estes sejam argumentos contra a Ordem.
A homogeneidade e os "carneirinhos" é algo que não desejo!

Já agora, caro colega, arrisco a dizer que a resposta a TODAS as suas questões é não!

Miguel Sousa disse...

Ana Cristina, tens razão de facto esses não são argumentos contra a Ordem, pela mesma razão que a aldrabica ne política a corrupção dos autarcas não são argumentos contra a democracia, por isso mesmo não entendo a argumentação apresentada

JMA disse...

Se os participantes tendem a pensar que a resposta às questões que lancei para o debate é NÃO, então podem ter a certeza que nunca verão qualquer ordem profissional de professores. Pela simples razão de que nenhuma ordem pode ser constituída contra a maioria dos professores. É nesse sentido que uma Ordem Decretada é sempre uma ordem inútil.
O factores que definem histórica e sociologicamente a Ordem são (cito alguns):
i) elevada competência científica e técnica;
ii) elevada formação académica;
iii) elevada autonomia profissional (em termos de competências, conhecimentos, atitudes,)
iv) capacidade de auto-formação;
v) responsabilidade face aos beneficiários da sua acção
vi) desfuncionarização face ao Estado (isto é, não recebem orientações científicas ou técnicas do Estado...)
vii) controlo científico e técnico pelos pares
viii) adesão a um código de valores, comportamentos, atitudes que devem estar ao serviço dos "beneficiários/clientes".

PS
O que a investigação nos vai dizendo é que a identidade profissional está pulverizada e balcanizada, que a lógica de acção está muito mais conforme à lógica do funcionário do que à do profissional (evidentemente que há excepções...).

Prof. Teresa disse...

Nunca fui sindicalizada. Nunca pensei em sê-lo. Se pensar em algum momento em que tenha sentido que precisamente MESMO de uma instituição que defendesse os meus interesses, digamos que... terá existido mas apenas em termos de informação. Nunca tive uma visão muito positiva dos sindicatos e, como em qualquer outro lugar, há colegas sindicalistas ou ex-sindicalistas que admiro e outros que.... sem comentários. O que eu nunca percebi foi a razão de tanta cisão e da existência de tantos sindicatos. Terá a ver, decerto, com algum arco-íris político mas... lembro-me sempre da história dos dois burros.
Neste caso, serão, seremos, não dois 3, 10 ou 100 somo vários burros, perdão, grupos a puxar cada um para o seu lado para comer um bocadinho de palha ressequida. A existência de uma Ordem sempre me pareceu, à partida, que pudesse resultar num Órgão com mais força. Mas há tantas coisas envolvidas que me é difícil por agora perceber e decidir. Se fosse a pensar na pergunta "Se houvesse uma Ordem aderias?", a resposta seria outra - ou outras - perguntas: E numa Ordem inscrevemo-nos? Candidatamo-nos? Fazemos um exame de acesso? A sua pertença seria obrigatória para o acesso à profissão? Há cá por casa alguém formado em Engenharia. Nem vale a pena perguntar-lhe porque não está na Ordem. Nunca terá visto necessidade. Mas os Engenheiros e os Arquitectos precisam, salvo-erro, de estar inscritos para assinarem projectos e quanto aos Advogados e Médicos sabemos como é. Que necessidades dos Professores seriam, sem dúvida, colmatadas com uma Ordem?
Curioso é a quantidade de reflexões que conseguimos suscitar pois eu já estou a pensar: seria a Ordem a responsável, óbvia ou não, pela avaliação dos docentes? O que diria a tutela?
Bom.... eu que não tinha assim tanto o costume de pensar nestas coisas - mas devia, mas devia.... - dou por mim a fervilhar. Só por isso, obrigada confrades!

Miguel Sousa disse...

JMA, concordo consigo e a respostas a essas questões acabam por quase me convencerem que a ordem é o caminho por que é isso quero da minha profissão é esse rigor na qualidade na formação no conteúdo na postura de um professor que se quer. Quanto à balcanização da profissão, se calhar tem razão mas o que se pode esperar de uma profiss~~ao sem qualqier elo de ligação, sem chama, sem brio que só não acaba porque exsitem muitos, felizmente que optam pela profissão porque se sentem vocacionados para a docencia...

Teresa sou sindicalizado e tenho muita honra em sê-lo, o acto de não concordar com as estratégias seguidas não minimiza a crença que tenho acerca dos sindicatos. Agora vejo e lamento que ao cortar as pernas à ordem o sindicato acaba claramente perdendo argumentos

boss disse...

Por imposição legal, e por opção profissional concretizada aquando do início da actividade, estou inscrito numa Ordem.

Compreendo os anseios dos que lutam pela criação duma Ordem dos Professores. Baseia-se, fundamentalmente, no enquadramento teórico, dos valores, dos princípios.

No entanto, será bom que não esqueçamos a praticabilidade dessas teorias. A inerente criação da estrutura de suporte. As regulares campanhas para acesso ao poder, que reside nessa estrutura. O exercício desse poder, aquando da sua detenção.

A Ordem a que pertenço (e que já está implementada) representa, em termos exclusivos, a classe.

Não existe movimento sindical (considero, mesmo, que a existência duma Ordem "empurra" para fora de cena esse movimento).

O poder disciplinar é exercido de forma extrema (os Diários da República publicam, todos os meses, centenas de sanções aplicadas).

As quotizações são pesadas e obrigatórias.

As despesas de representação, utilizadas por quem está na estrutura, são enormes. Os jantares, as viagens, as estadias, implicam centenas de milhares de euros, todos os anos.

Por último, reparem nos que lider(ar)am a(s) referida(s) estrutura(s) que já existem: sempre nos media, sempre em autopromoção, sempre em defesa de benefício próprio, capitalizando para o momento em que abandonam o cargo - tempo em que, se não conseguem potencias os números dos seus clientes, concretizam a sede de poder e dinheiro em cargos de nomeação político-partidária.

Vejam os exemplos. Analisem as situações práticas.

Se depois, ainda assim, a Ordem for interessante ... então o prémio nacional para o melhor Professor ou a divisão da classe em duas categorias hierarquicamente difenciadas são boas soluções para classe. Pfff.

E desculpem o desabafo.

Miguel Pinto disse...

A ideia é criar uma Ordem para chegar à deontologia? E o que é a deontologia? É o tratado acerca de o que se deve fazer. Se fizer o que devo fazer procedo deontologicamente. Uma deontologia educacional compreende todos os parceiros do processo educativo e cabem neste círculo todos aqueles que, no Estado ou na Sociedade, participam no processo educativo. Seria uma absurdo, nesta perspectiva, criar uma Ordem dos Pais?
Será necessário criar uma Ordem para elaborar uma carta dos deveres profissionais do professor? Não. O quadro legal já estabelece esses deveres e direitos.
A deontologia profissional só existe nas responsabilidades e obrigações que cada educador se concede a si próprio. Parece-me claro que a deontologia profissional não advém de um código formal mas de um código ético da educação.

Miguel Sousa disse...

Miguel discordo que seja só uma questão de deontologia, mas que precisamos dessa carta precisamos sim....e a verdade e que com sindicatos tão "empenhados" ela ainda não nasceu...

JMA disse...

Mantendo-me no corpo central dos comentários. Insisto nas questões estruturantes (e nas teorias) de análise. No Estudo das condições objectivas e subjectivas. Na atenção às contradições e paradoxos ("a Ordem faria cumprir as linhas matrizes emanadas do ME" - em termos científico-técnico-pedagógicos o ME não teria nada a ver com isso, teriam de desaparecer as direcções gerais pedagógicas, pois os professores deixariam de ter essa tutela...). Um dos obstáculos maiores tem a ver com a enorme diversidade de formação incial (há Professores como 5º/7º ano do liceu (ou equivalente); com a enorme diversidade (e até antagonismo) de concepções pedagógicas, com visões da profissão completamente diferentes e com um "espírito corporativo" diluído ou desfeito. Tudo razões paar o Miguel Sousa defender a necessidade de criar a ordem. O problema é se isso é viável no plano teórico e prático. Lembro, aliás, que existe há mais de dez anos uma organização chamada "Pró-Ordem" que vem militando ano após ano com esse propósito. Não sei quantos associados tem. Mas sei que tem impacto reduzido e está muito longe de lá chegar. Porquê? Sem lançarmos as hipóteses explicativas, sem enunciarmos as questões iluminadoras (como o bom método científico aconselha...)ñunca compreenderemos a realidade. E sem compreender a realidade é difícil mudá-la....

AnaCristina disse...

Sou sócia da Pró-Ordem há muitos anos e tenho pena que ela tenha pouco mais de 5000 associados. Colaboro na divulgação da sua "palavra" mas sei que não chega. Os professores querem uma Ordem de verdade mas não querem abdicar da sua "autonomia"... Acontece como o trabalho cooperativo: toda a gente acha bem que se faça e estaria disposto a trabalhar em parceria mas quando chega o momento, os professores recuam porque pensam que a sua competência está a ser posta em causa pelo colega.

Não sei se a Ordem deveria ser decretada como o M.Sousa diz, talvez não... mas sem dúvida nenhuma que tem que existir alguma coisa que nos aglutine. Os sindicatos, além de serem mais de 900, defendem sobretudo questões laborais e monetárias. Não me sinto representada e por isso recentemente me des-sindicalizei (?). Creio que uma Ordem nos uniria, nos poria sob a mesma batuta orientadora... no entanto, o ME não "iria na cantiga de nos deixar à solta"!! Enquanto os professores forem controláveis, tudo está perfeito para o Governo (seja ele qual for), e uma Ordem iria retirar esse controlo, iria dar liberdade aos professores para resolver os problemas do ensino (ou pelo menos tentar).