sábado, maio 2

Articulação curricular – revisitar os fundamentos

Quando dizemos que a educação escolar visa a formação integral das crianças e jovens estamos a dizer duas coisas muito simples: 1. Que a personalidade é multilateral e harmoniosamente desenvolvida; 2. Que as disciplinas escolares cooperam no desenvolvimento dos diversos aspectos da personalidade.
A organização do sistema educativo, os conteúdos curriculares e os programas de ensino, devem estar devidamente articulados, direi, harmoniosamente articulados, porque se crê que a harmonia do sistema escolar é conexa à harmonia do desenvolvimento da personalidade das crianças e jovens.
É neste sentido que eu defendo que a articulação curricular está impregnada no meu conceito de escola. A articulação curricular não é mais do que uma forma de facilitar a assimilação de cultura às crianças e jovens e porque é uma forma de tornar mais eficiente o processo educativo. Mas convém relativizar a importância da articulação curricular no processo de formação da personalidade dos sujeitos:

  • Primeiro, porque as crianças e jovens têm uma palavra a dizer na sua própria formação, isto é, são sujeitos “activos. Quero com isto dizer que as crianças e jovens não são apenas objecto e produto das relações sociais e das actividades em que participam. São também sujeitos activos, actuantes e transformadores das suas circunstâncias.
  • Segundo, porque é possível o desenvolvimento da personalidade dos sujeitos sem um sistema educativo coerente e articulado. Recusar esta evidência é admitir que o sistema educativo português nunca educou. Recusar esta evidência é fazer-de-conta que a articulação curricular foi mais do que algumas experiências de colaboração avulsas, reguladas administrativamente, compulsivas e orientadas para a implementação de ordens superiormente determinadas.

A IC enfatizou, no comentário à minha entrada anterior, as possibilidades e dificuldades da articulação curricular. JMA considera que é necessário intervir a montante. Subscrevo os dois pontos de vista. Mas eu não sei a que "montante" se refere o JMA. Sei que a escola, como um espaço de ensino e aprendizagem, em qualquer área do conhecimento e da cultura, deve consubstanciar, antes de mais, um processo pedagógico de desenvolvimento da personalidade, tem de ordenar valorativamente as actividades escolares, já que são as actividades que suscitam a autonomia, um determinado grau de consciência e um determinado grau de criatividade às crianças e jovens.

7 comentários:

rabina disse...

Concordo. O sistema educativo sempre educou.
Acrescento - cabe ao CP e restantes profs. crer no que escolheram para se realizarem profissionalmente e querer investir na qualidade dos seus actos enquanto agentes orientadores na educação de crianças/adolescentes.
É por isso que precisamos de separar o trigo do joio com um modelo de avaliação que seja exequível(não um emaranhado de papéis que só complicam) e cada um tem de trabalhar no seu lugar próprio(optar entre a sua empresa ou a escola, servir as 2 bem não é possível).
MLR tem razão em muita coisa, alguém tinha de pôr mão na confusão que jorrava na educação, (pena foi não ter sido bem coadjuvada, como parece continuar a não ser).
Veremos as cenas dos próximos capítulos...

3za disse...

Vou lendo, apenas, e reflectindo... mas esta é uma altura complicada para mim por várias razões... Aguardo folga... Será que chegará um dia?

henrique santos disse...

Rabina
"... tem razão em muita coisa".
Um comentário: essa coisa que deixei sequer de denominar, faz algum tempo, mesmo em citação, fez uma coisa que todos os mentirosos fazem: misturar algo de verdade para as mentiras soarem e passarem melhor.
A Educação tinha realmente muitos problemas. Este governo e ministério acrescentou-lhe mais alguns. Quanto ao que fez de bom confesso que estou toldado pelo mal que globalmente lhe vejo fazer. E ao "ver as cenas dos próximos capítulos..." prefiro participar resistindo como posso e acompanhado.

henrique santos disse...

Quanto ao tema da articulação curricular em si vou colocar um comentário que fiz no blog da Isabel. Em parte passa pelas questões que o Miguel aqui aborda, designadamente na questão de considerar os alunos (e os professores) como sujeitos, e não meros objectos.
Isabel
acho que as questões que colocas são fundamentais. Primeiro, o exemplo deveria vir de cima. Verifica-se que a nível dos currículos há desarticulação. Isso seria um problema a resolver numa instância superior se os nossos governantes estivessem virados para aí e ouvissem os professores que são capazes de lhes dizer isso. Segundo, acho que os professores devem tomar em mãos essas questões. Só que isso demora tempo e como ele é desviado para coisas pouco produtivas não sobra para o essencial. Faz-se o acessório que é aquilo que é pedido com carácter obrigatório.
Outra questão que considero fundamental e que vai piorar nos próximos tempos devido a decisões ministeriais é a da formação dos professores, inicial e contínua, específica e geral. Os professores devem ser tratados, formados com um nível elevado, como pessoas e profissionais capazes de ler a realidade, tomar decisões, etc. Ora ao Ministério interessa, pelo que vemos, formar mão-de-obra barata, inculta, submissa que por sua vez forme uma massa explorável de baixo nível que são a maioria os nossos alunos das escolas públicas. Eles não confessam isso mas é isso que eles pretendem e estão a conseguir fazer. Quanto a currículos o professor é, deve ser um produtor de currículo e de articulações curriculares. Se for tratado como aplicador de programas o problema está logo aí: como vai educar/formar verdadeiramente pessoas capazes de pensamento próprio se ele não o tem, nem lho reconhecem?

JMA disse...

Quando refiro o intervir a montante quero dizer que é necessário mexer na gramática da escola: no modo de organizar os programas, os espaços, os tempos, a organização das turmas.... para já não falar na formação dos professores.

Miguel Pinto disse...

E não será necessário mexer no montante do teu montante, JMA? Não será necessário (re)afirmar o papel principal da escola?

JMA disse...

Sim. Sendo que o essencial para mim é: fazer com que cada aluno possa dar o máximo de si, possa desenvolver todos os seus talentos para construir um mundo mais habitável, mais humano, mais solidário. Mas, para que isto seja possível, é a tal gramática que terá de ser mudada, sob pena de se mudar o acessório para tudo ficar na mesma. Não será, meu caro MP?