sexta-feira, janeiro 30

Como construir o futuro da escola

A pedido da Isabel e como presente (atrasado) de aniversário:

(...) Os professores e os alunos são, em conjunto, prisioneiros dos problemas e constrangimentos que decorrem do défice de sentido das situações escolares. A construção de uma outra relação com o saber, por parte dos alunos, e de uma outra forma de viver a profissão, por parte dos professores, têm de ser feitas a par.

A escola erigiu historicamente, como requisito prévio da aprendizagem, a transformação das crianças e dos jovens em alunos. Construir a escola do futuro supõe, pois, a adopção do procedimento inverso: transformar os alunos em pessoas. Só nestas condiçõesa escola poderá assumir-se, para todos, como um lugar de hospitalidade.

Rui Canário
(Fonte)

6 comentários:

IC disse...

Obrigada, JMA :)
Eu sei que o Aragem anda assim... em hibernação, digamos, mas persisto na esperança de que, ultrapassado 'este inverno', ainda venhamos a ter aqui alguns momentos de debate sobre temas decisivos para o futuro da escola e que todos gostaríamos de ver discutidos, não tanto neste modesto espacinho, mas nas escolas e no país em geral.
De qualquer modo, sugiro vivamente a quem por aqui passe a leitura de todo o texto de Rui Canário. E permito-me destacar, além do que o JMA destacou, mais este excerto, também da parte final:

"Não é possível adivinhar
nem prever o futuro da escola,
mas é possível problematizá-lo. É
nesta perspectiva que pode ser fecundo e pertinente imaginar uma
“outra” escola, a partir de uma crítica ao que existe. Deste ponto de vista, a construção da escola do futuro poderá ser pensada a partir de três finalidades fundamentais:
• A de construir uma escola onde
se aprenda pelo trabalho e não
para o trabalho, contrariando a
subordinação funcional da educação
escolar à racionalidade económica
vigente. É na medida em
que o aluno passa à condição de
produtor que nos afastamos de
uma concepção molecular e transmissiva da aprendizagem, evoluindo da repetição de informação para a produção de saber;
• A de fazer da escola um sítio
onde se desenvolva e estimule o
gosto pelo acto intelectual de
aprender, cuja importância decorrerá do seu valor de uso para “ler” e intervir no mundo e não dos benefícios materiais ou simbólicos que promete no futuro;
• A de transformar a escola num
sítio em que se ganha gosto pela
política, isto é, onde se vive a democracia, onde se aprende a ser
intolerante com as injustiças e a
exercer o direito à palavra, usando-a para pensar o mundo e nele
intervir."

Miguel Pinto disse...

Agradeço ao JMA a partilha deste magnífico texto de Rui Canário. É para mim reconfortante saber que a "minha" escola cultural continua a ser uma escola para o presente e para o futuro. Atendendo ao momento de enorme convulsão laboral vivido pelo professores portugueses, quero sublinhar o nosso exemplo como um hino à cidadania participada e de democracia que deve ser intolerante com as injustiças. Lutar contra as injustiças é um imperativo ético que nenhum professor pode recusar.

3za disse...

"...Construir a escola do futuro supõe, pois, a adopção do procedimento inverso: transformar os alunos em pessoas. Só nestas condições a escola poderá assumir-se, para todos, como um lugar de hospitalidade."
Importante que os professores possam também ser (os deixem ser) pessoas que se sentem acolhidas com hospitalidade no espaço que partilham com as crianças-pessoas que desejam ajudar a formar. Vivo tempos simultaneamente doces e amargos: por um lado tento fazer o que preconiza Canário, contra todas as adversidades (com o apoio das crianças e das famílias), por outro... o sistema escola não é hospitaleiro: pune-me (com faltas e outros doces tratamentos)precisamente por decidir dar o contributo na diferença e não na conformidade. Durante quanto tempo um professor mais frágil sobrevive hostilizado no espaço que devia habitar com o maior dos prazeres? Para fazer pessoas é preciso poder ser uma primeiro... Então, a luta que mantemos ganha todo o sentido: estamos a fazer tudo para tornar a escola num espaço onde as pessoas possam respirar e crescer... todas elas. E nela oferecemos o exemplo máximo de cidadania crítica capaz de gerar a mudança.

JMA disse...

De facto, a escola vem-se tornando num espaço e num tempo concentracionário (creio que o escrevi vai para mais de três anos)onde não importa o que se faz, desde que lá se esteja mesmo a fazer nada(o efeito do presencismo, como também lhe tenho chamado). Este teatro do absurdo ultrapassou o limiar da farsa e vivemos hoje a tragédia.

IC disse...

Creio que o JMA, no comentário aqui, se refere aos alunos. Mas, a propósito de espaço e tempo e também do comentário da 3za, trago estas palavras do próprio JMA, de um número de 2005 do Correio da Educação (não é que as encontrei muito rapidamente?! deve ser porque parecem de hoje...):
"O tempo obrigatório de presença na escola é assim um tempo individual, esmigalhado, sem qualquer sentido estratégico e colectivo. É um tempo assistencial, dispersivo, desgastante e desqualificante. Haverá a humildade de saber ver? Haverá a lucidez de rever decisões burocraticamente perfeitas e aparentemente sustentáveis? Em nome da dignidade profissional e dos interesses educativos dos alunos?"

Teresa Lopes disse...

Não pude deixar de sorrir com o comentário do JMA: "Este teatro do absurdo ultrapassou o limiar da farsa e vivemos hoje a tragédia."

Vivi, um dia destes, uma situação de absurdo. Fazia uma substituição numa turma do 8º ano, uma turma por sinal com alguns alunos oriundos de um certo (elevado) extracto social e a aula tinha-se iniciado num clima de boa disposição, da minha parte, e de algum constrangimento por parte dos alunos, embora estivessem devidamente comportados e a participar ainda "a medo". Aproveitando um momento em que me debrucei sobre o livro de ponto para fazer um registo duas alunas levantam-se silenciosamente e só as vi de costas sair porta fora.
Devia ter ficado com um ar de estupefacção durante uns segundos e a primeira coisa que consegui articular foi perguntar aos alunos o que se tinha passado. Vivi o absurdo, total, durante esses breves segundos.
O que se passou depois não vale a pena contar.

O artigo de Rui Canário é, de facto, um iluminar sobre o escuro que temos hoje em muitas escolas, um ponto de partida para inúmeras reflexões.
Destaco a seguinte afirmação referida pela IC: "A de fazer da escola um sítio onde se desenvolva e estimule o gosto pelo acto intelectual de aprender...", sem tragédias.